
Meio século pelos grandes sertões
João Guimarães Rosa
"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens."

DADOS BIOGRÁFICOS
Formado Médico, trabalhou em várias cidades do interior de Minas Gerais, onde tomou contato com o povo e o cenário da região, tão presentes
Veio a ser Ministro no Brasil no ano de 1958, e chefe do Serviço de Demarcação de
Fronteiras, tratando de dois casos muito críticos de nosso território: o do Pico da Neblina e das Sete Quedas. Seu reconhecimento literário veio mesmo na década de 50, quando da publicação de Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, ambos de 1956.
Eleito para ocupar cadeira na Academia Brasileira de Letras no ano de 1963,
adiou sua posse por longos anos. Tomando posse no ano de 1967, morreu três dias depois, vítima de um enfarte.
Guimarães Rosa é figura de destaque dentro do Modernismo. Isso se deve ao fato de
ter criado toda uma individualidade quanto ao modo de escrever e criar palavras, transformando e renovando radicalmente o uso da língua. Em suas obras, estão presentes os termos coloquiais típicos do sertão, aliados ao emprego de palavras que já estão praticamente em desuso.
Há também a constante criação de neologismos nascidos a partir de formas típicas
da língua portuguesa, denotando o uso constante de onomatopéias e aliterações. O resultado disso tudo é a beleza de palavras como "refrio", "retrovão", "levantante", "desfalar", etc., ou frases brilhantes como: "os passarinhos que bem-me-viam", "e aís e deu o que se deu – o isto é".
A linguagem toda caracterizada de Guimarães Rosa reencontra e reconstrói o cenário mítico do sertão tão marginalizado, onde a economia agrária já em declínio e a rusticidade ainda predominam.
Os costumes sertanejos e a paisagem, enfocada sob todos os seus aspectos, são mostrados como uma unidade, cheia de mistérios e revelações em torno da vida.
A imagem do sertão é, na verdade, a imagem do mundo, como se prega em Grande Sertão: Veredas.
O sertanejo não é simplesmente o ser humano rústico que povoa essa grande região do Brasil. Seu conceito é ampliado: ele é o próprio ser humano, que convive com problemas de ordem universal e eterna. Problemas que qualquer homem, em qualquer região, enfrentaria.
É o eterno conflito entre o ser humano e o destino que o espera, a luta sem tréguas entre o bem e o mal dentro de cada um, Deus e o diabo, a morte que nos despedaça, e o amor que nos reconstrói, num clima muitas vezes mítico, mágico e obscuro, porém muitas vezes contrastando com a rusticidade da realidade.
Seus contos seguem também, de certa forma, a mesma linha desenvolvida dentro de seu único romance.
PRINCIPAIS OBRAS
Romance Contos
Grande Sertão: Veredas (1956).
Sagarana (1946);
Corpo de Baile (1956);
Primeiras Estórias (1962);
Tutaméia – Terceiras
Estórias (1967);
Estas Estórias (1969);
Ave, Palavra (1970).
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